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02/03/2010
Baleia assassina?
 

Por Anivaldo Miranda*

Estava em casa, na hora do jantar, semana passada, quando ouvi as primeiras notícias e imagens sobre o episódio que custou a vida da treinadora de um dos parques norte-americanos que vendem espetáculos cujos astros e estrelas são, em sua maioria, grandes mamíferos aquáticos, adestrados durante anos em regime de cativeiro. A treinadora, uma experiente profissional, foi puxada por uma Orca, ao que tudo indica acometida de algum tipo de estresse e de momentâneo comportamento agressivo.

Ao comentar o fato, chocante pela lamentável perda de uma vida humana, a repórter do Jornal Nacional, com visível tom de indignação, chamou a baleia de “assassina”, usando de expressão facial que denotava aquela ponta de raiva e desprezo que as pessoas pacatas dedicam a bandidos e homicidas.

O tratamento dispensado ao animal não é típico apenas da Rede Globo. Grosso modo, é parte de uma generalizada visão antropocêntrica radical e estúpida, que permeia todos os meios de comunicação, inclusive, pasmem, muitos dos programas televisivos que exploram a vida animal silvestre como fonte de gordos e milionários retornos financeiros.

Anestesiadas pela enorme torrente de imagens e informações que se alternam no fluxo não crítico e monumental que caracteriza a indústria cultural de massa, as pessoas não costumam refletir muito sobre aquilo que captam na mídia. A partir daí, suas idéias, conceitos e reações passam a ser formatadas, não pelo bom senso comum, mas sim pela visão simplificadora do mercado e dos monopólios midiáticos, interessados exclusivamente na espetacularização intermitente da realidade e na exploração de emoções primárias e preconceitos que possam render público e lucrativa audiência.

E é esse processo triturador e padronizador do inconsciente coletivo que leva ao tipo absurdo de abordagem informativa que caracteriza a mídia quando trata da relação entre os seres humanos e demais seres vivos. Absurdo, sem dúvida, porque, no caso dos humanos homicidas, a civilização criou o direito de defesa. No caso dos animais, como a baleia Orca, por exemplo, esse direito inexiste e a condenação é sumária. Como os animais não possuem nível de inteligência para se expressar em pensamentos lógicos e complexos, qualquer um pode, então, dar-lhes a sentença, via de regra, a pena capital quando envolve morte de humanos.

Vai daí que resolvi, neste curto escrito, fazer a defesa da baleia, mesmo que a repercussão e resultado prático dessa defesa seja mínimo. Dormirei, todavia, bem melhor, depois de concluí-la. Sendo assim, pergunto eu: quem de fato são os assassinos da treinadora? A baleia ou os proprietários e beneficiários dos espetáculos que usam animais confinados para “divertir” o público em condições duvidosas de segurança?

Alguém deu-se ao trabalho de perguntar à Orca sobre os motivos do seu repentino acesso de fúria? Claro que não. E como ela não pode dizê-los, digo eu em poucas palavras: a baleia gigantesca, cuja casa são os espaços oceânicos dos mares, não agüentou mais anos e anos de prisão insana em tanques e piscinas ridículas para suas necessidades de vida, gasto de energia, fantasia animal e bem estar psicológico.

Como qualquer ser vivo, ela não suportou mais a tortura diária dos treinamentos, do barulho das multidões incompreensíveis de turistas e espectadores agitados, do tédio do confinamento, da solidão que lhe impede dar vazão aos seus instintos naturais e um sem número de sofrimentos que a mente humana jamais será capaz de avaliar, a não ser mediante comparação indireta com aquilo que acontece quando homens e mulheres são submetidos a prisão e maus tratos.

Ao reagir, a baleia nada mais fez do que exercitar seus instintos vitais. Acuada, entediada, pressionada, quem sabe até doente, o alvo de sua fúria inconsciente, pois se trata de ser irracional, foi a treinadora que, apesar de ser a vítima, era também carcereira da baleia e estava mais do que consciente dos riscos embutidos em sua profissão.

Chamar a baleia de assassina é, portanto, reforçar uma atitude que precisa ser revista, principalmente em 2010, o ano que a ONU vai dedicar à biodiversidade. A baleia é tão, ou mais vítima do que sua treinadora. E se alguma sentença deva ser dada, essa sentença deve ser a decisão política de acabar para sempre com os espetáculos grotescos onde animais participam em condições de visível sofrimento.

Aos que, eventualmente, considerarem tolas essas reflexões e banal o assunto levantado, devo lembrar que a premissa para a existência humana é a existência das outras espécies vivas. Embora boa parte dessas espécies componha nossa alimentação, nem por isso devemos deixar de observar o respeito que elas merecem, se é que queiramos respeitar a nós mesmos e preservar os fundamentos da nossa própria vida. Houve época em que espetáculos com gladiadores eram tratados como simples divertimento. Hoje seriam encarados com horror. Quem sabe, um dia, o maltrato das baleias venha a ser visto da mesma maneira?

* É jornalista e ambientalista. Secretário Executivo da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos em Alagoas.

Fonte:
NEJAL

 
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